Fazenda Pantera inova para ampliar produção

Diário da Fazenda

Em 1980, quando o desmatamento era incentivado pelo Governo Federal como forma de garantir o progresso das fazendas no Norte e Nordeste do País, João Feuerstein resolveu manter intacta a mata ciliar que cercava a propriedade de 300 hectares. “Nessa época todo mundo achava que isso era loucura”, comenta.

Hoje, a fazenda Pantera, em Dom Eliseu (PA), nos seus atuais quatro mil hectares, mantém uma mata de 1,5 hectares e dá mais um exemplo de ousadia na preservação do meio ambiente: adotou uma experimentação no modelo de pecuária silvipastoril e deve dobrar sua produtividade em dois anos. “No modelo tradicional, por hectare, conseguimos manter um animal; no modelo silvipastoril podemos chegar a até cinco animais no mesmo espaço de terra. Se eu dobrar o número de cabeças por hectare na minha fazenda já é um ganho inestimável”, compara.

A pecuária ‘ecológica’, que tem como base a substituição das grandes áreas de capim por uma mescla de árvores de tamanhos diversos, não é uma invenção da fazenda Pantera. A inovação por ali é a forma que encontraram para otimizar a substituição da braquiária pelas mudas de leucena – planta que servirá de alimento para os bois. Conforme conta Feuerstein, na Colômbia – país referência neste modelo – as mudas são plantadas de forma manual. “Como as propriedades são menores é tranquilamente possível esse modelo de produção”, explica o produtor.
Não é a realidade das fazendas por aqui. Assim, na experiência da Fazenda Pantera, nos 30 hectares onde as mudas de leucena foram semeadas, a mão de obra manual foi adaptada pelo cultivo mecanizado. “Como não existe no mercado uma máquina específica para plantar a leucena fizemos uma adaptação com maquinário de cultivo de milho. Agora o modelo deve servir de exemplo para outras propriedades”, comenta.

A experiência parece simples, mas o resultado é grande. No processo manual, em 30 dias de trabalho árduo, foi possível plantar dois hectares; com o procedimento mecanizado chegou-se à marca de 30 hectares em dois dias. “Fomos fazendo experiências que deram certo”, garante.

Entre as descobertas valiosas que Feuerstein pode ensinar hoje é que o plantio requer atenção a alguns detalhes técnicos, como por exemplo, a orientação geográfica na forma de distribuir as sementes e a distância entre elas. “A leucena deve ser plantada de Leste para Oeste e numa distância de 50 centímetros uma da outra. Só assim ela capta a energia necessária do sol e promove a infiltração de nitrogênio que vai permitir uma capacidade nutricional muito maior para o animal”, explica.

E é justamente a capacidade nutricional dessa planta que vai fazer a diferença na produção. Conforme explica o produtor, enquanto o capim tradicional tem um potencial protéico de no máximo 8%, a leucena chega a 28%. “Isso sem contar que a braquiária está sujeita a pragas, como a cigarrinha. Já a leucena não permite a proliferação dessas pragas”, comenta.

Obviamente que essa mudança no modelo de produção exige um investimento inicial. Mas segundo Feuerstein, outro ponto a favor da leucena é que, diferentemente do capim, ela não precisa ser replantada. “Você planta só uma vez, depois é só cuidar do manejo. Conhecemos na Colômbia fazendas cujas leucenas já completam 25 anos, ou seja, o retorno é certo”, destaca.

Outra vantagem desse modelo, que pode ser visto na fazenda Pantera, é o melhor aproveitamento das áreas. Isso porque além da leucena, as áreas de produção pecuária são usadas para plantio de árvores de médio e grande porte, e ao redor das mangas de produção, pode-se produzir milho ou outros grãos. “Estamos escolhendo árvores frutíferas para cultivar nesses espaços. Uma ideia que era inviável no modelo tradicional”, defende.

Uma fazenda zen

Mas o modelo silvipastoril não é o único diferencial da fazenda Pantera. Ali a filosofia é manter tudo na máxima tranquilidade, na política do “curral zen”. “Aqui na fazenda tudo é muito silencioso, você não vê o vaqueiro gritando com o gado. Vaca tranquila produz muito mais”, garante. E o procedimento tem se mostrado adequado. Nas 2,8 mil cabeças de gado o índice de prenhês das fêmeas chega a 94%. Do rebanho total, pelo menos 1/3 é abatido por ano e os números na balança são surpreendentes: com 30 meses de nascido a média de peso dos bois chega a 18 arrobas por animal.

Nessa lógica toda a fazenda foi divida em mangas de dois hectares que abrigam no máximo 50 vacas e 50 bezerros. Todas contam com um cocho de sal e água coberto, para garantir conforto. Além disso, são separados por peso e raça. “Se colocamos todos juntos eles brigam, ficam estressados e isso reflete na precocidade do bicho”, explica.

E a política ali é rigorosa com relação a esses resultados. Conforme detalha o produtor, se em sete meses o bezerro não alcançar pelo menos 180 quilos a vaca progenitora vai para o descarte. “Para manter esse controle todas as matrizes têm brinco e uma ficha que controla seu desempenho”, diz.

O curral também foi todo pensado para manter a calmaria da bicharada. O espaço tem 14 divisões e capacidade para pelo menos 700 cabeças. O espaço é todo cercado de calhas para não ficar sujo durante a permanência dos animais para pesagem ou vacinação. Durante o trajeto do bicho para a balança, por exemplo, o cercado impede que ele veja o que acontece ao redor. “Ele pensa que está sozinho ali e fica menos nervoso”, explica o fazendeiro.

De bem com a natureza

“Nunca colocamos fogo em nada aqui. Ao contrário, de vez em quando ainda nos reunimos para apagar incêndio na vizinhança”, diz. É nessa lógica que Feuerstein construiu a fazenda Pantera. Filho de pai e mãe alemães e vindo de uma família de 16 irmãos, ele nunca imaginou que poderia, um dia, ter tanta intimidade com a fazenda. “Eu sempre quis ser engenheiro mecânico”, conta. E o sonho aconteceu, por muito tempo. Durante anos ele atuou no Paraná como instrutor do Senai e ajudou a formar mecânicos.

Foi a experiência como maquinário que permitiu que montasse, em Imperatriz, em 1980, a Pantera Máquinas. Da troca de uma motosserra e outros equipamentos veio o primeiro pedaço de terra. “Aceitei: queria um lugar para passar fim de semana”, lembra. Hoje o ‘sitio’ é tão grande que para dar conta de todo o trabalho são duas sedes, em pontos opostos da fazenda, cercada por dois rios. A produção é cheia de curiosidades, como a drenagem da água da chuva, que mantém seca as estradas mesmo nas águas. Há criações de porcos, a base de leite, e até urubus e aranhas cercam o lugar. “Todos os animais tem uma função na natureza, todos, sem exceção tem sua importância”, destaca. O exemplo de sucesso mostra que sim!