Maity e a produção de açúcar e etanol em Campestre (MA)

Diego Leonardo Boaventura

A equipe do Diário da Fazenda partiu, durante todo o dia 20 de julho, para uma visita às instalações – agrícolas e fabris – da Maity Bioenergia, em Campestre, Maranhão. Recepcionados pelo verde-cana das gigantes plantações de cana-de-açúcar e com a cordialidade do presidente da empresa, o engenheiro agrônomo Antônio Celso Izar (na foto), e seus funcionários, sempre muito educados e com um sorriso largo no rosto, o Diário pôde conhecer como funciona o processo de produção de açúcar e álcool da companhia, fundada em 1985, fruto do empreendedorismo de Celso Izar, que viu na região um grande potencial para o negócio. O nome Maity significa “Cana de Açúcar” na língua indígena dos Carajás e traduz a essência do trabalho desenvolvido pela empresa.

Campos cultivados, áreas sendo preparadas para o plantio, enormes extensões sendo colhidas são alguns cenários encontrados, hoje, na Maity Bioenergia. Além de uma instalação industrial com uma usina autossuficiente em energia, com capacidade para abastecer, no futuro, uma cidade como Imperatriz por 12 meses, onde se produz açúcar e etanol. A Maity possui atualmente uma área plantada de 6.500 hectares de cana-de-açúcar, mas, prevê uma expansão até 2014 e deve alcançar a marca de 12.000 hectares plantados, com uma capacidade de moagem para 1,2 milhão de toneladas/ano com produção estimada em 50 mil m³ de etanol e 1,2 milhão de sacas de açúcar.

Hoje, a usina é a única a produzir açúcar no Maranhão e atende, predominantemente, Imperatriz e São Luis. De acordo com informações da unidade industrial, a Maity responde na economia de Campestre e região por cerca de 2 mil empregos diretos.

O limiar

O projeto Maity foi o último empreendimento financiado pelo Banco Mundial para o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), aprovado em 1985. Segundo o presidente da usina, Antônio Celso Izar, a escolha do Maranhão e, especificamente, da região Tocantina, se deu em função de o Estado reunir todas as condições favoráveis para a indústria da cana. “Eu procurei no Brasil inteiro condições de aptidão agrícola, semelhantes às melhores de São Paulo, busquei também um mercado que fosse absolutamente desabastecido e uma logística perfeita. Então, a escolha do Maranhão foi porque reunia todas estas condições. A escolha do local certo para implantação de qualquer negócio é fator determinante para o sucesso. No lugar certo um projeto tem mais chance de sobreviver a crises e elas sempre acontecem”, garante.

Relembrando o dia que pousou pela primeira vez na região, no aeroporto de Imperatriz, Izar diz: “Eu vi aquele local e disse: aqui é o meu lugar. Nesta época, a região vivia a agitação intensa de movimentos e conflitos sociais e falei pra mim mesmo, eu vou provar para esta turma que a melhor arma para vencer a pobreza chama-se trabalho organizado. E mais, quem trabalhar comigo vai ter direito de comer o que produz”.

Desde 1985, a Maity vem consolidando sua presença no Estado, participando e contribuindo no desenvolvimento econômico e social da região. Além dos empregos diretos e indiretos, a unidade já tem em seu quadro cerca de 60 profissionais com nível superior.
Ainda assim, o Maranhão é o Estado que mais importa açúcar no país.

Plantio e Colheita

Hoje, 900 trabalhadores rurais trabalham na usina na fase de plantio e colheita manual, com predominância de mulheres no plantio e na colheita, homens. No entanto, a Maity caminha para o corte mecanizado da cana e, para o gerente agrícola, o engenheiro agrônomo Francisco Oliveira, é um caminho sem volta. “Vamos diminuir a mão-de-obra braçal, mas as pessoas vão se qualificando e um cortador de cana poderá ser o operador de uma máquina, uma colhedora, uma plantadora de cana ou ser mecânico”, afirma. Com a mecanização, será eliminada a queima do canavial, ainda praticada, para melhorar as condições de trabalho e aumentar o rendimento do trabalhador.

No dia da reportagem, 20 de julho, trabalhadores rurais estavam na lida na área de plantio que visitamos. Um deles era Francisco Edivaldo Santana, 57 anos, conhecido como seu Didi, que trabalha na Maity desde 2001 no plantio e colheita da cana. Ele se diz satisfeito com o trabalho e com a empresa. “Aqui tá bom demais, trabalhei muito tempo em serraria e não recebia direito nenhum, aqui recebo todos os meus direitos certinhos. Já tirei meu seguro, meu PIS cinco vezes”, conta. Membro da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), seu Didi preocupa-se com a segurança de seus companheiros de trabalho. Com sua enxada, ele vai arrumando as partes que o trator não percorreu, além de ser arrumador de ferramentas. “Eu trabalho consertando erros”, brinca.

A meta anual da Maity é plantar 1.800 hectares de cana-de-açúcar e, este ano, já foram cultivados 1.000 hectares, faltando 800 hectares para alcançar o objetivo. Assim, a produção em 2012 deve chegar a 550 mil toneladas de cana. Sobre as condições para o bom desempenho da cana na região de Campestre, Francisco Oliveira diz que os solos da região são extremamente ricos, o clima é propício, com muito sol, ou seja, muita luminosidade, chove bem durante o ano e tem muita água para irrigação.

Fertirrigação

A Usina utiliza o processo de fertirrigação – irrigação e, ao mesmo tempo adubação – por meio do uso da vinhaça, em 2.500 hectares, de um total de 6.500 plantados. A vinhaça sai do processo da produção do álcool e é rica em potássio, nitrogênio e fósforo. Depois de misturada com água do processo da indústria, segue pelos canais fazendo a fertiirrigação. A Maity pretende investir ainda R$ 60 milhões em um projeto de irrigação, em cinco anos, potencializando ainda mais a produtividade. A meta é irrigar 10 mil hectares ao final de cinco anos que equivale a 10 mil hectares sem irrigação.

Variedades 

As principais variedades plantadas nas áreas da usina são a RB7515 e RB92579. A RB7515 é a principal variedade cultivada hoje, representa 50% de toda a cana produzida. É uma variedade tardia, tem acumulação média de açúcar. Porém, no momento a Maity vem plantando pouco dela, pois já tem suficiente. Está cultivando agora outras variedades, principalmente, a RB92579, a rainha do Brasil na atualidade, sendo a variedade que mais cresce no país, uma variedade rica, muito responsiva à irrigação, não sofre muito na seca e tem alta produtividade. No total, existem mais ou menos 100 variedades de cana plantadas na área, no entanto, variedades comerciais são em torno de cinco ou seis, apenas.

Campo de experimentos

A Maity também tem uma parceria com a Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa), com um campo de experimentação. O órgão é ligado às universidades federais e trabalha no melhoramento genético da cana-de-açúcar, produzindo novas variedades da planta. A usina paga royalties para a Ridesa para utilizar a variedade de cana. Cerca de 25 mil variedades diferentes estão plantadas na área da Maity. “Daqui a uns 10 anos pode surgir uma variedade nova e boa dessas 25 mil e, se isso acontecer, o negócio é um sucesso”, diz o engenheiro agrônomo.

A logística da Ridesa é a seguinte: cada universidade cria clones em seus respectivos estados a partir da semente produzida pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e, anualmente, os melhores clones selecionados em cada universidade são enviados para as outras, o que permite incrementar o número de clones a serem avaliados na rede de experimentos estabelecidos por cada universidade em seu respectivo estado. O convênio é entre nove universidades federais, são elas: UFPR, UFSCar, UFV, UFRRJ, UFS, UFAL, UFRPE, UFG e UFMT.

Novidades 

Está previsto para 2013, o lançamento de um produto novo da Maity Bioenergia, trata-se de um açúcar especial, o Maity Ouro, desenvolvido pela empresa. “É uma patente nossa, um processo que descobrimos aqui e desenvolvemos. Esse produto despertou um interesse muito grande dos Estados Unidos”, revela Antônio Celso Izar, presidente da Maity. Segundo Celso, o açúcar cristal rico foi testado por 25 gourmets de São Paulo e superou todos os açúcares que existentes no mercado. A Maity tem ainda um plano de expansão dentro do estado do Maranhão e tende a produzir mais açúcar que etanol.